Ao escutarmos Real emotional trash recordamos a cumplicidade criativa que aproximava os Pavement e os Sonic Youth, percorremos o imaginário de Stephen Malkmus enquanto cronista urbano, possuidor de um fino recorte de ironia, revisitamos o legado dos Kinks (de forma indisfarçável em We can't help you e Gardenia) e matamos saudades de Crooked rain, crooked rain, que ainda hoje alguns de nós escutam regularmente, como se de um troféu se tratasse. Go back to those gold sounds...
Deixando o capítulo norte americano para trás, regressámos na última semana à Europa. A Carla já me tinha garantido que o novo álbum de Goldfrapp era diferente dos anteriores, porém confesso que não esperava que fosse tão despojado e surpreendente. A voz de Alison surge-nos doce e pastoral. As composições tingidas pelo imaginário de Nick Drake e Syd Barrett, nomes maiores e tantas vezes repetidos, quando se trata da tradição folk britânica. Os elementos electrónicos apenas pontuam cada faixa, de uma forma secundária e ostensivamente despercebida, capturando cenários como aquele que ilustra este texto. Longe vão os tempos das vocalizações épicas e límpidas que encontrávamos em Felt mountain; mais estranho, face ao presente, as sucessivas incurdões por uma electrónica dançável. O resultado de Seventh tree radica nas melodias pop de Caravan girl, em refrões que se repetem como o de Happiness, e em Clowns, uma faixa destinada aos primeiros raios de sol...
Raios de sol que mais dificilmente chegam a Gotemburgo, cidade que, tal como Portland, se destaca pela sua efervescência artística. A partir da qual dois nomes têm lançado blitzes nos últimos tempos, recolhendo cada vez mais militantes para uma causa cujo objectivo maior é a perfeição pop: Jens Lekman e El Perro del Mar. O primeiro capitaliza hoje, por território norte americano, os efeitos de Night falls over Kortedalla, enquanto que Sarah Assbring acaba de editar o seu segundo longa duração: From the valley to the stars.
Um segundo trabalho em que a jovem autora sueca procura soluções para as suas composições que pareciam demasiado reféns do carácter mimético e repetitivo do primeiro álbum. A estrutura das suas faixas parte sempre da repetição de uma melodia e da palavra, e da exploração da sua voz, num tom melancólico e por vezes distante. Em From the valley to the stars nada disto se perde, contudo Sarah introduz não só instrumentos que nos remetem para uma atmosfera menos fria do que aquela que percorria Look! It's El Perro del Mar, como confere a algumas das faixas uma marca quase religiosa, pela forma como utiliza orgãos de igreja e coros da mesma natureza (presentes em Happiness won me over). Trata-se de uma fuga possível face ao curto perímetro que a estrutura das suas composições lhe oferece, restando ainda espaço para faixas como Somebody's baby, puro exercício pop que parece ter transitado das sessões do seu trabalho anterior, ou Inside the golden egg, deliciosa peça instrumental remanescente da década de 40, devendo bastante aos pequenos exercícios de Damon Albarn, que encontrávamos nos primeiros álbuns dos Blur. E se em palco, Sarah se apresentava tendo o auxílio de samples e de apenas dois músicos (e recordo-me de um concerto abusivamente barulhento no Imago há dois anos), afigura-se curioso o formato que terá em mente de modo a transportar para o palco esta marca de maior sobriedade, e por vezes complexidade, que incorpora From the valley to the stars.
PS: Entre estas duas viagens do Metro de Quarta-feira, uma terceira contou com a presença da Inês Patrão que, pela segunda vez, acompanhou a Carla num programa em que se destacaram os álbuns do projecto The Do e de Chris Walla. Encontram a setlist deste programa num post que a Inês aqui colocou. Aproveitamos pois para agradecer à Inês, assim como à Sara Mendes, pelas substituições de última hora, face a imprevistos que não são nada indie.
































